abril 1, 2012 - Publicado por Paula Jano - 2 Comentários
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Carlos Drummond de Andrade
Tenho um apreço especial por dicionários, ao longo dos anos criei em casa uma prateleira só para eles. Ficam na altura do meu braço, bem próximo do ouvido esquerdo porque ao contrário do que se possa pensar, um dicionário não serve apenas para corrigirmos ou buscarmos termos desconhecidos ou duvidosos. A esta função primeira de buscar no dicionário a definição correta, o termo obscuro, inúmeras outras funções se combinam no encontro com as palavras : os sinônimos, a etimologia e finalmente a possibilidade de através do conteúdo que se encontra em um único verbete se criar uma sucessão de ideias que nos levem a outros tantos caminhos. Por isso fui acumulando dicionários dos mais variados assuntos: dos animais, dos símbolos, dos lugares imaginários, os analógicos, dos mitos literários, das gírias brasileiras, dos suicidas ilustres, das definições arquitetônicas e até tenho um de autoria familiar, o dicionário de homeopatia.
Gostaria de dividir com vocês um que tem especial significado para a cidade, o Diccionario do Município de São Paulo, do meu querido Affonso de Freitas (1868-1930), publicado em 1929 pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Este dicionário contém como vem definido na primeira página:
“a origem e a história do município e de suas povoações; descripção da climatologia regional; interpretação dos termos autochtones empregados na geographia e no vocabulário dialectal: nomenclatura das ruas e bairros da cidade e origem das respectivas denominações; elucidação de fatos históricos desenrolados na capital do estado, etc, etc.”
O volume que tenho é o primeiro e só contém palavras com a letra A. Comprei este exemplar sabendo da ausência das outras letras do alfabeto. Mas mesmo assim comprei porque o autor foi um renomado pesquisador da cidade que por algum motivo não conseguiu que os outros volumes vingassem. Era pegar ou largar. Ou o A da cidade de Freitas, ou nada.
Lendo os verbetes se percebe que estes futuros volumes (B – Z) deveriam existir ou estavam muito bem encaminhados pois em muitos há indicações para se buscar mais sobre o assunto tratado em outros termos como: Faculdade de Direito, Cidade-Jardim e etc…
Talvez no futuro um pesquisador encontre nos calabouços do Instituto Histórico Geográfico de São Paulo os manuscritos perdidos de Freitas que devem dar conta das outras letras do alfabeto. Mas por hora temos que ficar com este de uma letra só.
Na maior parte das vezes um dicionário vale pelo universo completo que ele abarca. A ausência de uma letra, o sumiço de uma única página pode inutilizar um dos objetivos mais primários do dicionário; dar busca num universo de palavras ou termos que obedece a uma determinada ordem.
A falha na ordem gera no usuário a sensação de não completude deste universo, a consciência que sua busca em algum momento corre o risco de não ser bem-sucedida porque ali existe algo inacabado.
Pois bem, meu dicionário de termos relativos à São Paulo sofre desta falha numa forma talvez muito intensa, porque não falta nele uma das letras ou uma página apenas, esta ausente dele a maior parte do alfabeto, só tenho a letra A, ou seja a menor parte do todo.
Ao mesmo tempo, por ser um fragmento desta sequencia alfabética e por eu saber de antemão que ele só existe na letra A, tudo se modifica na forma de abordá-lo. Começando pelo fato que ele em si não abarca uma totalidade, apenas uma mínima parte deste todo. Por outro lado este fragmento que tenho perfaz uma unidade, pensando que vai do A do começo ao fim.
Talvez esteja querendo explicar pra vocês algo que também tem a ver com o trabalho do pesquisador de história. É exatamente assim que um buscador de tempos trabalha, com fragmentos. Porém como historiador e amante do tempo ele deseja a completude, a sequencia dos fatos, a sucessão dos acontecimentos, o encadeamento de algo que ele só pode participar pelo registro que se oferece como mensagem. Para um historiador, quanto mais fragmentos ele reunir melhor, quanto mais sequencias e encadeamentos de registros, mais viável será sua leitura critica dos outros tempos.
Por outro lado, o excesso de material ou a lógica cumulativa que se traduz em farta documentação e informação, pode levar o nosso historiador a uma área de conforto que seria o equivalente em ter diante de si um dicionário completo, um universo que bastaria apenas ordenar sua lógica para se obter uma visão privilegiado de um determinado assunto. E com este raciocínio, ao contrário de um texto reflexivo sobre determinado tempo-espaço, surge uma enorme enciclopédia de informações encadeadas em que a regra parece ser não abrir mão de quase nada do que foi encontrado. O resultado desta odisseia em reunir informações e encadeá-las é que muitas vezes o pesquisador perde a chance da seleção, da escolha e recorte do que seria mais representativo na abordagem de um determinado assunto.
Não é o documento encontrado e re-apresentado por mais raro que seja que tem a capacidade de se autoexplicar manifestando seu tempo redescoberto. O documento não é autoexplicativo, somos nós que criamos o caminho e a forma de representá-lo. Nossa encadeação de ideias é que aponta um lugar atualizado no presente para esta seleção de registros que escolhemos para dar liga a um determinado assunto. A nossa função é costurar uma nova trama que vai cerzindo presente e passado de uma maneira muito singular, porque passa por escolhas e apropriação de conhecimentos. Esta reflexão critica, seletiva e particular, é de fato o que faz com que cada registro mantenha um frescor inexplicável: colocamos perto o que estava longe, claro o que parecia obscuro, vivo o que estava inanimado.
O fato do dicionário só trazer a letra A parece ser um ótimo limitador natural deste universo que muitas vezes almejamos infinito e sedutor. Por isso ao contrário de muitos outros dicionários que tenho aqui na minha prateleira os quais consulto com as primeiras e segundas intenções, este eu faço diferente, abro pra ver a onde me leva. E através desta outra leitura proporcionada pelo acaso me divirto e me surpreendo com as propostas do autor.
(para retornar dos links abaixo clique seta superior voltar)
Através da letra A percebo a forma como Freitas foi selecionando o que ele percebia de fundamental no século XX sobre a cidade de São Paulo. Quais os verbetes que ele escolheu para desenvolver assuntos referentes a cidade naquele momento.
E com este método acabo por fazer achados que muitas vezes são inéditos e totalmente estranhos e outros buscas minhas também. Fico grata pelos estranhamentos e coincidências como a palavra Acú, dá língua tupi-guarani que é veneno, mas que também refere-se ao antigo nome da Av. São João bem no início dela, a Ladeira do Acú.
Acú também se estendia ao nome da ponte que atravessava e ligava os dois lados do Vale do Anhangabaú. A origem de Acú vem da redução de Iacuba (água que contém veneno). Iacuba ou Yacuba era denominado o rio que nascia no largo do Tanque do Zúniga e ia confluir com o Anhnagabaú. Até 1780 o Tanque do Zúniga tinha o nome primitivo de Iacuba. Passa a ser Zúniga a partir do momento em que o sargento-mor Manoel Caetano Zúniga se “investira da propriedade das nascentes do curso d´agua”, e impediu o povo de levar roupas no “seu” tanque. Em 1865, o Tanque já aterrado muda de nome e passa a homenagear à tomada da praça uruguaia de Paissandú, ficando conhecido pelo atual nome de largo do Paissandú.
Há vários verbetes de nomes próprios, a maioria conhecemos porque fazem parte da história da cidade ou de fatos históricos nacionais comemorativos, porém o primeiro apelo é associar o nome a uma rua da cidade, porque de fato temos uma enxurrada de ruas de nomes próprios vindos de uma época em que a rua não valia apenas pelo seu uso ou localização, a rua passa a ser um lugar de visibilidade, de elegia. Os nomes próprios migram para ruas no século XIX, como novas tatuagens que marcam o lugar.
Porém o nosso amigo Freitas não fica apenas esclarecendo quem foi quem na história nacional. Ele vai mais fundo e mais longe. Por exemplo, a Rua Amador Bueno do distrito de Santa Iphigenia, batizada assim em 1865 em homenagem “ a Amador Bueno da Ribeira, o acclamado rei de São Paulo”, antes se chamava Rua do Meio, denominação tirada de sua localização entre a rua antiga de São João e dos Bambus ( atual Av. Rio Branco).
Interessante ainda é pensar que as ruas antigas, especialmente aquelas ligadas ao uso e ao espaço, não se restringiam a um único lugar da cidade. Existia uma outra rua do Meio em São Paulo no que hoje é a rua Carlos Gomes, entre a rua de Cima, hoje Liberdade, e a de Baixo, que é o prolongamento da rua Carlos Gomes. Como se à época valesse mais a topografia do lugar do que a singularidade dos nomes.
Isto também me fez lembrar que algumas ruas que mudaram de nome no final do século XIX, permaneceram sendo reconhecidas pelas antigas referências de uso ainda por um longo tempo. Quem faz alusão a esta permanência de referências são os cronistas da cidade que não cansavam de chamar o novo pelo antigo, negando de certa forma a dissociação que se fazia na forma de viver e se deslocar na cidade que os nomes próprios traziam às conhecidas áreas de passagem.
E por mais que hoje já perdemos nas ruas as referências de uso que as tornavam mais compreensíveis a quem por elas caminhava, ainda acho que vale a pena o exercício de unir aquilo que era do outro tempo com o que ai está.
A Ladeira Porto Geral por exemplo, se mantém entre nós e ainda faz alusão a um passado que talvez poucos pessoas que perambulam por ela imaginem. A Ladeira foi caminho do porto, ali embaixo ainda se via o rio Tamanduateí e as embarcações que traziam alimentos e faziam grande parte do transporte da cidade chegavam e partiam deste porto.
Ali no alto da Ladeira bem merecia haver um telescópio em que as pessoas ao olharem por suas lentes vissem para além do formigueiro humano que passa pela rua 25 de março, a antiga ladeira de paralelepípedos, o rio e suas 7 voltas serpenteando lá embaixo e talvez o movimento das lavadeiras que se dirigiam as águas do Tamanduateí. E nada disso que estou descrevendo aqui seria impossível de acontecer, porque tudo faz parte de registros, imagens de ilustradores e fotógrafos que estão por ai distribuídas em álbuns, memórias e documentos prontos para se re-unirem a fim de contar uma história.
E agora, ao finalizar este texto, vejo que burlei o dicionário de Freitas e escapei sem querer da letra A para navegar por tantas outras letras e assuntos da cidade que ele disparou em mim com o poder de uma letra só.
Quem foi Affonso de Freitas:
Affonso de Freitas ocupou por muito tempo a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Foi um grande historiador dos assuntos paulistas e excelente cronista. Escreveu durante a vida toda e tem uma extensa lista de publicações dos mais variados assuntos. Dentre as obras publicadas e acessíveis, destaco o gracioso livro Tradições e Reminiscências Paulistanas que mostra a cuidadosa escrita de Freitas aliada a profunda erudição com a história de São Paulo, principalmente sua preocupação com termos indígenas e questões oriundas do português vernacular.
Referências bibliográficas:
Freitas, Affonso de. Diccionário do Municipio de São Paulo, Graphica Paulista – Editora: São Paulo, 1929.
Freitas, Affonso de. Tradições e Reminiscências Paulistanas, Governo do Estado de São Paulo (3.ed): São Paulo, 1978.
julho 22, 2011 - Publicado por Paula Jano - 0 Comentários
Uma pérola de Tom Zé do LP de mesmo nome revela um diálogo entre duas grandes personalidades do centro novo de São Paulo, o Hotel Hilton e o Edificio Itália. Segue aqui a letra e um áudio postado no youtube. (Censurado por enquanto)
fevereiro 17, 2011 - Publicado por Paula Jano - 7 Comentários
Os primeiros filmes que vi na vida foram nos cinemas de rua. Eu não sou tão velha assim para falar que isto foi há muito tempo atrás. O fim do Astor, onde fiquei tanto tempo na longa rampa em filas homéricas, abraçada no meu namorado, comendo pipoca até as portas enormes se abrirem e corrermos em busca de um lugar para ver o filme em cartaz . O Astor que me causou tanto medo, prazer e liberdade virou Livraria Cultura, com rampa estilizada e só, nada ali lembra mais o meu Cine Astor com sua sutil bilheteria no corredor da galeria do Conjunto Nacional.
Vizinho do antigo Cine Astor, também desapareceu o nome do Cinearte, talvez o parente mais próximo do Belas Artes por ser ele da família dos cineclubes, cinemas com filmes de quem foi mordido pelo amor ao cinema e com este criou laços profundos. Porém o Cinearte sobreviveu como sala e virou Cine Bombril. Assim repaginado, inaugurou uma nova história de cinemas que mudam de nome conforme seu patrocinador. No caso o Bombril já virou passado. Mudam os patrocinadores e também altera-se o nome do cinema , o Bombril, “aquele que limpa tudo” , agora deu lugar ao Cine Livraria Cultura .
Tenho boas memórias dos filmes que vi em determinados cinemas, associo o filme que vejo com o lugar, o nome da sala e com quem assisti. Acho que não sou a única a fazer isto. Gosto do cheiro, da cor do carpete, das possíveis pulgas e das poltronas que nunca são iguais. Lembro da aventura que era ir ao Cineclube Bixiga, sempre telefonar e marcar a poltrona, das semanas temáticas do Cineclube da Getulio Vargas, do filme O Incrível Exército de Brancaleone e como eu ri e chorei porque ao mesmo tempo em que via o filme, lamentava a morte do meu cachorro basset, o valente Totó.
No Metrópole, o grandioso cinema de espelhos já falecido há um tempo na Galeria Metrópole (Centro Novo), vi outro filme da minha vida, Olhos Negros. O grande ator Marcello Mastroianni , mocinho do filme, foi o nome que dei para o meu filho de tanto que gostava dele, ao mesmo tempo um homem lúdico e safado. As paisagens do filme e a trilha sonora ligavam-se a minhas raízes oníricas com a Rússia , lugar que nunca conheci mas que sempre esteve presente no sangue que corre por minhas veias. O filme viajava pela obra do escritor russo Tchekhov, inspirado no conto A Dama do Cachorrinho. Lembro que entrei de um jeito no cinema e sai de outro. Nunca mais esqueci o olhar triste da mocinha na última cena do filme ao lembrar-se daquele homem sonhador interpretado por Mastroianni.
Depois fui muitas vezes ao Center 3, na verdade ao Bristol, até que o fogo pegou no prédio todo, e aquelas armaduras bregas dos valentes soldados da “távola-redonda” que faziam parte da decoração do cinema, provavelmente derreteram junto com o antigo cinema. Diziam que o Center 3 era um edifício maldito, catingado. Demorou um tempo e o Center 3 surgiu repaginado também. Na mudança, sumiu a catinga do lugar e também a rampa da galeria, cheia de cacos de vidro com um nicho no meio onde se instalou por muito tempo uma loja de flores. No lugar da antiga rampa existe agora uma escada rolante e, onde foi o Cine Bristol, gerou-se uma série de mini bristols que só preservam do original o nome.
O fim do Belas Artes
Neste momento estamos diante de mais um fim de cinema de rua, o Belas Artes, cinema que esta na ativa desde os anos 70. O Belas Artes é da classe dos cinemas de arte, dos cineclubes, como outros que já não existem mais: o Bixiga, o Oscarito, o Coral . Ele ocupa um lugar sacralizado ao cinema de arte na cidade quase na esquina da Av.Paulista com a rua da Consolação. Desta região também já desapareceu seu fiel vizinho de frente , o bar Riviera, antigo ponto de encontro de intelectuais. O próprio Belas Artes quase fechou as portas há algum tempo atrás, mas graças a reforma e o novo inquilino ressuscitou.
Fui lá outro dia ver Abutres, um filme pra quem tem sangue frio ou ama adrenalina pura, não vou contar o filme. Só digo que para encarar os Abutres, precisa ser muito macho.
O Belas Artes, se morrer, morre com qualidade de filmes e freqüência de várias estrelinhas e poucos cifrões no caixa. Os mais ortodoxos vão dizer que o som é ruim, nada comparável aos grandes cinemas de shopping e que já vai tarde. Entretanto ele tem semanas temáticas, ingressos mais em conta e eu, particularmente, detesto o “ruído” que o shopping causa quando quero ir apenas ao sagrado cinema. Primeiro é o inferno do estacionamento, achar uma vaga, depois encaixar o carro na vaga que tem o tamanho de uma caixa de fósforos, depois de conseguir estacionar o carro na caixa de fósforos, memorizar o como e onde encontrá-lo novamente na volta. Ai temos que subir várias escadas rolantes, várias, porque o cinema obviamente esta no último andar. As escadas te fazem rodar de propósito por corredores e lojas, praça de alimentação e etc… até que finalmente você chega no último andar, no Olimpo, onde estão os cinemas e uma fila enorme de gente que chegou antes de você. Em suma, acho que o crime muitas vezes não compensa.
Prefiro a Alma Encantadora dos Cinemas de Rua
Sou a favor da rua, da qualidade democrática que esta oferece aos habitantes da cidade. Sou a favor que os cinemas não mudem de nome por conta de seus patrocinadores, e sou a favor de uma programação de qualidade que faça o cinema de rua continuar a ser um lugar de referência das nossas produções imaginárias e culturais. Lugar de afeto, de medo, de sono, de horror e de profundo amor. O tombamento no caso do Belas Artes parece que não vai resolver a questão , existe um proprietário que se nega a dar um passo em favor do cinema mesmo com a possibilidade de tombamento. Pesa sobre o edifício a ser tombado o fato de ter sofrido uma grande reforma: suas características arquitetônicas originais se perderam, porém, sua qualidade de filmes é histórica e se mantém . Este espírito de cineclube que se conserva como tal até os dias de hoje resulta na produção de um lugar de referência na cidade voltado para uma determinada expressão cultural reconhecida de forma viva pela população paulistana , ou seja, um espaço público (pensando na área que o imóvel se insere) voltado para a exibição cinematográfica. Isto é algo bastante relevante e deve ser levado em conta na avaliação de um bem a ser tombado, o edifício permaneceu fiel ao seu caráter, afeta o lugar e é afetado por este.
Porém, resta saber como preservar e garantir que esta qualidade da arte/cultura aliada a um lugar seja assegurada na vida da cidade de maneira efetiva. Estamos diante de um grande impasse que revela o quanto as pessoas se mobilizam para defender aquilo que gostam e usam. Porém cabe ao poder público perceber que precisa ter mais formas de garantir à cidade e a população desta que estes lugares que pertencem a preservação ambiental de nossos espaços imaginários, culturais e coletivos sejam salvaguardados para além dos interesses imobiliários presentes de forma acintosa em São Paulo.
Para finalizar este texto, domingo dia 06/02, li no jornal o Estado de São Paulo um artigo sobre o cinema, as salas de exibição e uma mudança na forma de assistir aos filmes. O Belas Artes cabe nesta discussão que também vem derrubando vários cinemas de rua, como mostrando que a alma coletiva das ruas anda por um fio. Como diz a reportagem, as pessoas preferem cada vez mais assistir filmes de forma individualizada. Porém acho que isto de individualismo, sem barulho de pipoca, pulga e evidências de outros interlocutores rindo ou roncando, torna a vida muito sem graça e a maior prova disto é o monte de depoimentos em defesa dos cinemas de rua que surgiram com o possível fechamento do Belas Artes . Estes depoimentos mostram também que há um desejo de preservar o cinema de rua, pela imprevisibilidade deste , pelo prazer que é o encontro apressado na porta do cinema, pela combinação que se dá há anos entre a pipoca estourada na calçado e o início de mais uma sessão, da diversidade tão interessante deste encontro das salas de cinema que só a rua proporciona.
Como leitura, indico aqui o livro do Inimá Simões sobre as salas de cinema de São Paulo, além do texto de quem conhece muito da história dos cinemas de São Paulo, tem fotos interessantes das salas de exibição .
Inimá Simões, Salas de Cinema em São Paulo, ed. Sec. Municipal da Cultura de SP/ Secretaria de Estado de São Paulo.
novembro 21, 2009 - Publicado por Paula Jano - 3 Comentários
Na Folha de São Paulo do dia 20, saiu um artigo sobre o reconhecimento de um painel na capela do Cristo Operário. A pintura parece ser de Yolanda Mohalyi, uma artista abstracionista que junto com outros artistas colaboraram com esculturas, painéis, mobiliários e jardins da capela. A revelação do painel que se destaca na chamada do artigo “O mistério da capela do Ipiranga”, indica um outro mistério: a própria capela. Esta, além de repleta de obras de Volpi, Burle Marx, Geraldo de Barros e outros, parece ter sua história pouco conhecida . O próprio repórter, ao comentar a presença de Volpi e Burle Marx, deixa claro que a capela tem freqüência bastante local e que nela foram celebrados apenas dois casamentos. No artigo também ficamos sabendo que a pequena casa de Deus é tombada e foi vizinha de uma fábrica de móveis dos anos 50, a Unilabor. Pra quem não sabe, a Unilabor foi fundada pelo frei dominicano João Batista Pereira dos Santos, vindo da França , com a colaboração de Geraldo de Barros e outros artistas que participavam do MAM e do MASP, quando ambos funcionavam na rua 7 de abril, centro novo da cidade. A idéia do frei João na época em que abriu a fábrica, era fazer um lugar de produção operária que funcionasse em regime de autogestão. O local escolhido para a execução deste projeto foi o Ipiranga onde também surgiu a capela. Esta nasceu totalmente associada a Unilabor. Os painéis de Volpi na capela, com Cristo bastante iluminado por luz natural, revelam ao fundo este viés social, operário com a presença de imagens relacionadas à fábrica e seus trabalhadores bem a contento de um determinado movimento cultural da época que vinculava muitos artistas a causas sociais e urbanas da cidade.
Esta relação dos artistas dos anos 50 com projetos sociais e lugares religiosos também pode ser apreciada em outros templos da cidade. Claro que com uma abordagem diversa, mas quem quiser pode dar uma passadinha na capela do Hospital das Clinicas que verá painéis de Pennachi e Brecheret, Igreja Perpétuo Socorro que tem a presença de Flexor ou ainda a Paróquia Nossa Senhora da Paz, onde há estátuas de Emendabilli, pinturas de Pennachi.
Eu particularmente, ao tomar conhecimento da capela do Cristo Operário e saber que o frei João era dominicano, achei que não era coincidência associar esta capela Cristo Operário com a que Matisse projetou em Vence para as Irmãs Dominicanas de Monteils entre os anos de 1947 a 1951. Assisti a história da construção desta capela francesa num documentário que passou na exposição de Matisse aqui na Pinacoteca de São Paulo. Matisse já doente vai para Vence e lá reencontra sua antiga amiga, que havia cuidado dele algum tempo antes, agora freira, atendendo pelo nome de Soeur Jacques. A freira pede a Matisse que ajude na construção da capela que as dominicanas querem erguer na cidade, e ele aceita. Entretanto, a construção da capela não foi nada tranqüila, a Madre Superiora de Vence relutou muito em acatar os vitrais, mobiliários e desenhos que Matisse projetou para o novo templo. Para ela, aquilo tudo era simples demais para uma capela. Apesar das intempéries da Madre Superiora e comentários maldosos sobre uma possível amizade mais intima de Matisse e sua amiga freira, o templo ficou pronta do jeito que ele quis. O documentário é meio longo, mas acho que valeu mais do que a exposição, porque além de contar a história desta capela de Matisse, acaba por mostrar a importância da luz, e das cores em sua obra, só que aqui, associado à fé.
Voltando à capela do Frei João aqui em São Paulo, na época em que foi inaugurada, anos 50, o bairro, cioso de uma igreja em homenagem a Santo Antonio, não achou muita graça na capela, apesar do frei João incluir em um dos painéis a imagem de Santo Antonio. Por outro lado, os artistas e arquitetos receberam a capela/fábrica como algo extremamente importante na vida cultural da cidade.
Depois de mais ou menos uma década fazendo móveis para a classe média, a fábrica da Unilabor fechou. Restou apenas o lado religioso deste projeto que originalmente uniu fé e classe laboriosa:a capela com o Cristo Operário de braços abertos, no bairro do Alto Ipiranga, permanece avessa a qualquer monumentalidade.
E não sei bem porque neste final de texto, cismei em colocar aquela música do Cazuza que ao falar das mazelas do Rio, desafia a cidade carioca a perceber seu símbolo máximo com olhos mais críticos: “estranho o teu Cristo Rio que olha tão longe, além, com os braços sempre abertos, mas sem proteger ninguém…”
Informações sobre o que foi tratado neste texto:
1.Pra quem quiser ir à Capela do Cristo Operário aqui vai o endereço: Rua São Daniel, 119 tel: 38818823
2.O livro sobre a Unilabor é de Mauro Claro, editado pelo Senac/SP, 2004.
janeiro 29, 2009 - Publicado por Paula Jano - 6 Comentários
Quem vê sem ouvir fica muito mais inquieto do que quem ouve sem ver (Walter Benjamin)
Existem critérios para os barulhos que escutamos no nosso dia-a-dia? Dentre as várias ondas de ruídos, quais seriam as mais dignas de lembrança?
A grande cidade deixou de ter um fundo silencioso faz muito tempo. O fenômeno excesso de barulho nas grandes cidades trouxe uma série de transtornos aos seus habitantes. O mais conhecido é o nível de ruídos suportável a audição humana, mais de 85 decibéis parece ser o limite de barulho que podemos agüentar sem prejuízos a audição. Aliás, este limite do quanto a gente agüenta de barulho vem sendo tema de artigos na imprensa , principalmente com as obras do metrô aqui em São Paulo e os walkmans, ipods, iphones diretamente conectados nos ouvidos da maior parte da juventude. Muito em breve, parece que teremos uma geração de adultos surdos. Mas a barulheira da grande cidade também revela um outro dado muito mais sutil e silencioso. O apagamento das lembranças auditivas no cotidiano de seus habitantes. Especialmente aqueles sons que um dia fizeram parte da nossa vida e que vão desaparecendo sem que tenhamos percepção de seu sumiço. É irônico constatar que perdemos os sons em silêncio. Talvez isto se dê pela confusão de barulhos que nos cercam, talvez pela desvalorização da memória auditiva , ou ainda por esta conjunção de faltas de estímulos que acabam por perpetuar esta ausência de percepção da importância dos sons nas nossas lembranças.
Estou ficando surdo de tanto escutar!
Nos critérios do que permanece por mais tempo como registro do passado, a memória visual ganha em disparado da memória sonora. O verbo ver é muito mais utilizado do que escutar. Apesar de termos perdido o silêncio há muito tempo, parece que hoje mais do que ontem, “ninguém escuta ninguém”. Então o excesso de barulho nos fez surdos aos chamados das lembranças sonoras. Guardamos filmes sem trilha sonora , no máximo imagens com escassas legendas.
Alguém já pensou nas suas lembranças sonoras particulares ao longo da vida? Lembro do assobio do meu pai ao chegar em casa, o barulho das pisadas seguras da minha mãe ao vir me tirar da cama de manhã, o som do amolador de faca, do homem da pamonha, do quebra-queixo e ai não lembro muito mais. Onde guardamos estes registros que não se repetem mais e nem são lembrados por nós a não ser por um grande esforço de memória? Como rever estes sons sem um registro deles?
Só para se ter uma idéia num outro dia assisti um documentário sobre demolições em São Paulo, História de morar e demolições, em que se entrevistavam algumas pessoas que iriam ter suas casas postas abaixo num curto espaço de tempo. A proposta do diretor do documentário foi registrar a casa destas pessoas antes da demolição. Para a execução do registro, o diretor deu para os depoentes uma máquina fotográfica para que os próprios selecionassem o que gostariam que fosse lembrado da suas casas no momento da filmagem. A maioria das pessoas repetiu algo semelhante e bastante singular, pediram para que fosse capturado lugares da casa que promoviam sons característicos e familiares: ranger de portas e janelas, campainhas, o barulho de um ventilador de teto e etc…. enfim os sons de lugares da casa que por si só provocavam lembranças. Eis aqui uma grande revelação da importância do registro sonoro: provocar de forma direta lembranças do lugar
Como ter critérios se não percebemos os sons que perdemos dia-a-dia, geração à geração?
Nossas trilhas sonoras têm uma história que vai do pessoal ao coletivo . E o que vem ocorrendo na grande cidade, é que vamos perdendo o nosso acervo de sons públicos e privados de forma galopante. Pensar formas de registrar as sonoridades urbanas parece ser tarefa fundamental não apenas para salvar as nossas lembranças mais distantes, mas para refinarmos os critérios dos sons que desejamos ou não tolerar na cidade em que vivemos.
Agora em novembro foi lançado um livro sobre a história das sonoridades da cidade de São Paulo na virada do século XIX para o XX. O livro Kaleidosfone é do historiador Nelson Aprobato Filho e busca revelar através de fontes diversas: memórias, ficções, legislatura da cidade e etc, os vários sons da cidade num momento de grandes transformações temporais e espaciais, a viradinha do século, como diria o poeta Juó Bananére.
A virada do século é um momento interessante para registrar hábitos e espaços que a cidade foi perdendo, e outros que começam a ser valorizados. Aquelas manifestações que não se desejam mais na vida urbana não desaparecem de imediato e o que é considerado moderno, não se fixa de forma tranqüila e nem imediata como pode-se imaginar numa olhada rápida para as imagens do passado. É nesta confusão de temporalidades, num espaço ainda bastante restrito, que se percebe com clareza a história da cidade. E, acredito eu que foi com esta perspectiva de cidade em transição, em dissonância, que Nelson Aprobato resgatou a história dos sons da cidade de São Paulo. Os antigos barulhos da cidade colonial como a saparia do Brás,o chiado dos carros de bois, os sinos das igrejas, convivendo com o barulho do trem, dos motores de carro, das fábricas e etc….
Estou no começo do livro, entre os sons das igrejas que anunciavam desde a morte de um habitante até os momentos das missas. Explica o autor que os sinos naquela época não serviam apenas para chamar os fiéis para a missa, sinalizavam muito do cotidiano dos habitantes da cidade. E assim as igrejas rodeavam a cidade de sinos, sons e hábitos. Imagine então a conjunção de sinos tocando em tempos diferentes numa cidade que vivia com um fundo silencioso quase que permanente?
É neste mesmo momento de paisagem silenciosa ao fundo da cidade que o chiado dos carros de bois adquire uma barulhenta história em São Paulo. Como nota Aprobato, a presença dos carros de boi entram a saem da cidade fazendo um barulhaço. O registro de vários viajantes que passaram por São Paulo é quase unânime em notar o barulho, rangido, chiado dos pesados carros de bois que passam lentamente pelas ruas de São Paulo levando lenha e depois material de construção. O barulho de chiados aumenta à medida que a cidade cresce, e sua presença começa a incomodar cada vez mais. Há registros do barulho insuportável deles ao chegarem e partirem da cidade, e como seu peso danificava as ruas centrais. Para conter os carros de boi, as autoridades municipais começam a buscar através de leis e regulamentos formas de proibir sua passagem na área central . A principio as novas regras não são acatadas e eles continuam indo e vindo pela cidade Outros sons juntam-se as antigas sonoridades da cidade. O apito de trem simbolicamente anuncia a presença dos barulhos mecânicos, surgem as chaminés e apitos das fábricas, o breque do bonde e com estes toda uma massa de trabalhadores que invade as ruas. Surgem os sons dos mascates , ambulantes de rua e dos entregadores de jornal.
Difícil não lembrar aqui os registros de Jorge Americano em São Paulo daquele tempo (1895-1915), crônicas repletas de sonoridades. O capítulo “Insônia” registra os barulho da noite, e parece que o fundo silencioso da cidade torna tudo mais claro, o ruído das patas dos cavalos, , o bonde da Companhia Viação, o galo da nossa casa. O capítulo dos “Vendedores ambulantes” contempla os barulhos do dia: o badalo da madrinha de tropas, o assobio do amolador, o som metálico de colher batida contra caçarola do folheiro, ao longe escuta-se um pregão fanhoso que ao aproximar-se revela o empalhador, à tarde vem entre nuvens de içás, o anúncio de sorvete e por ai cidade vai trocando de sons ao longo do dia.
Em São Paulo daquele tempo os antigos barulhos da cidade misturam-se aos novos barulhos dos veículos motorizados, do apito do trem , da chaminé da fábrica e dos mascates das ruas. Mais um pouco, o chiado dos carros de boi desaparece de fato e os sinos não comandam mais o dia a dia da cidade. E surge, cada vez mais forte, este barulho indiscriminado , este ruído surdo misturado de pressa, buzina, breques de onibus, de construção e destruição que vai apagando sorrateiramente nossas lembranças sonoras.
O livro de Aprobato é muito bem-vindo, não apenas porque nos conta de um passado sonoro que em sua maior parte desconhecemos, os sons perdidos da cidade colonial e os novos sons da nascente metrópole, mas porque, ao resgatar os registros sonoros do passado, os barulhos de São Paulo, proporciona a nós leitores, elementos para refinar e ter critérios de valor sobre os sons que desejamos ou não para a nossa vida na cidade.
outubro 19, 2008 - Publicado por Paula Jano - 13 Comentários
Por acaso ou força do hábito , fui no domingo à feira do Bexiga e lá encontrei um guia bastante singular: Guia de terrenos baldios de São Paulo or Guide to the wastelands of São Paulo. O simplório guia, todo em preto e branco e bilíngüe, chamou minha atenção. Terrenos baldios esta cidade tem de monte. Em regiões valorizadas, os tais terrenos tornam-se verdadeiros potes de ouro nas mãos da especulação imobiliária. Folheando o simpático guia reencontrei o emblemático terreno onde foi o antigo colégio Des Oiseaux. E através dos comentários sobre este na rua Augusta com Caio Prado, revelaram-se mais curiosidades sobre aquela vasta área protegida de muros, motivo do meu último post no Versão Paulo, “Moça vestida de estudante pula muro e volta às aulas.” O guia diz que o colégio cedeu a área para a prefeitura e em contrapartida esta deveria conservar as árvores e transformar 75% do terreno num parque público. Até agora o terreno continua lá, baldio, com as árvores, um estacionamento e um circo ótimo, Zanni, que faz uma temporada no local . Mas parque público, não parece que virou. Mais pra frente no texto, ainda há referência a uma sociedade que há 12 anos comprou o terreno, Sociedade Armando Conde Investimentos e, por ter sido contestada pelos vizinhos, elaborou um plano B chamado Projeto Parque dos Pássaros, homenagem mórbida ao oiseaux do antigo colégio. O shopping center teria 14.000 metros quadrados e, 10.000 metros seriam reservados a um parque que a benemérita “sociedade do mal” cederia a prefeitura desta cidade tão cheia de shoppings e tão carente de parques. Mas parece que a coisa sofreu nova contestação graças a deus, de uma outra Sociedade, esta do Bem, os Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César ( SAMORCC), que alegaram ser o terreno um dos poucos pulmões verdes do centro da cidade com vegetação de Mata Atlântica. Este grupo criou um comitê dos aliados do Parque, o qual reunia em 2006, 300 pessoas. Além de tentar segurar este projeto nefasto de shopping/gaiola com nome de pássaro, em 2006, momento em que este guia foi lançado, havia um processo na câmara dos vereadores em que foi pedido que a prefeitura comprasse o terreno e o conservasse como parque. Agora fica-se na dúvida, se o antigo colégio (des Oiseaux) cedeu para a prefeitura o terreno há um tempão atrás e, naquela época, exigia que a prefeitura fizesse dos 75% do terreno um parque, como é que esta sociedade do mal compra o terreno e faz um projeto em que a maior parte da área é para shopping piu piu e apenas 10.000 ficam para a prefeitura fazer o que até agora ela não fez? Bom gente, desculpe não ter dado uma explicação histórica daquelas com começo, meio e fim. Às vezes, a história apronta destas, acaba com uma dúzia de dúvidas contra meia de certezas….
Sobre o guia dos terrenos baldios de São Paulo: A edição é de 2006 e foi feita por conta da 27 Bienal de São Paulo que tinha como tema “Como viver junto”. O projeto é de Lara Almarcegui (Espanha), artista que faz trabalhos fotográficos interessantíssimos com prédios abandonados e locais deteriorados. Foram impressos 27.750 cópias. Outros terrenos aparecem em várias regiões da cidade. As histórias são muito interessantes e, na apresentação do guia, há uma breve explicação geral sobre este fenômeno na cidade de São Paulo: a maior parte dos terrenos baldios esta ligada a realização de um projeto, são lugares onde tudo é possível porque a principio são todos filosoficamente vazios. Há terrenos com histórias fantásticas, outros relacionados a situações conflituosas, e ainda aqueles que são verdadeiros oásis na cidade. E este breve resumo prova por A + B que viver junto é difícil, mas sem dúvida, provoca um número enorme de histórias. postado por Paula Janovitch
junho 22, 2008 - Publicado por Paula Jano - 2 Comentários
foto do Colégio des Oiseaux
Quinta-feira à noite, dia dos namorados, a cidade estava com um congestionamento de casais e mais casais a caminho de, ou indo ao encontro das/dos. Nestas condições resolvi sair de casa para ver um pequeno espetáculo de música + teatro na Praça Roosevelt, “Opera Crua”, com os atores Gero Camilo, Rubi e Luiz Gayotto. Mas para chegar lá, fomos capturados pelos amores lícitos e ilícitos da Augusta street, que hoje mistura o antigo trottoir das mariposas da noite, com a moçada das novas boates e barzinhos da região. O trânsito parou de fato na altura do terreno baldio do extinto Colégio des Oiseaux, travessa da rua Caio Prado, demolido nos anos 70 . De repente, do outro lado da Augusta, onde fica o restaurante Piolin, sai uma moça com roupas de estudante dos tempos idos – saia plissada, meia ¾ , gravatinha e camisa branca – atravessa a rua e pula o muro da escola que ocupava a área de 24.000 metros quadrados. Minha amiga antes do pulo da “estudante” deu um grito do carro, “tá tudo bem com você?” e a moça meio sem jeito falou, “tá, isto é uma peça de teatro”.
Tietê
foto do rio Tietê, 2008 São Paulo nos últimos anos vem tendo várias das suas áreas ocupadas por peças de teatro que andam utilizando a geografia e o mobiliário urbana como espaços cenográficos. Podemos lembrar o corajoso grupo de teatro Vertigem que em uma de suas muitas apresentações, resolveu em 2005 encenar num barco dentro do rio Tietê a peça “ BR-3” (1). A duração da peça foi de mais ou menos 2 h 40 minutos. Atores e espectadores tiveram que incorporar à apresentação, o cheiro do rio e as imundices que pelas suas águas passam. Se não estou enganada, depois que o barco do Vertigem passou pelo rio, ano passado houve em suas margens plácidas um desfile tipo fashion week e vingou um passeio turístico de barco que leva amantes da cidade para navegar por um dos seus trechos. Eu já fui num destes passeios e fiquei impressionada com a sujeira e a quantidade de bichos, aves principalmente, que moram nas cercanias.
(1) “BR3 – A Peça” virou documentário
foto de pássaro sobrevoando o rio Tietê, 2008
Só acho que a proposta do passeio que é muito agradável e confortável, tem até música ao vivo e vinho branco, seria muito mais legal se no percurso víssemos um pouco da outra vida do rio. Meu pai nadou no Tietê. E quantos outros pais não devem ter nadado lá? Valeria a pena que nestas viagens fosse contada estas histórias que povoam a memória dos moradores mais antigos da cidade, dos historiadores que se debruçaram sobre os outros tempos do rio e dos clubes ex-náuticos que permanecem ali nas margens, escondidos pelo movimento do trânsito.Eu adoraria participar desta viagem no tempo pelo rio Tietê…
Vila Maria Zélia
foto Vila Maria Zélia, 2008/ Livia Gabbai
O grupo XIX, também faz um trabalho maravilhoso de ocupação geográfica na cidade. Estão firmes na zona leste, numa vila operária bárbara que foi tombada em 1992 e construída em 1917, a vila Maria Zélia. “Hygiene” , o primeiro espetáculo apresentado na vila, convidava o público a assistir a peça andando pelas ruelas e pelo tempo. Pois a história da peça tinha tudo a ver com a origem do lugar. Até mesmo a construção da vila operária que ao ser concebida teve forte influencia do pensamento higienista, o qual, no final do século XIX passou a organizar os espaços e corpos dos habitantes da cidade. Antes da “ Hygiene” ocupar esta vila, eu já conhecia o lugar. Fui lá na época em que era pesquisadora do DPH, achei um lugar interessante, mas, vivo mesmo, só depois que vi a ocupação do grupo XIX. E isto é que é tombamento bão, algo que não só preserva o lugar, mas retoma sua vida, incerta é claro, pois vida que é vida é feita de imprecisão, amém!
Subterrâneo do Viaduto do Chá
Em 2008 já tivemos novamente o Vertigem ocupando a extinta passagem subterrânea do Viaduto do Chá. Pois é, acredite se quiser, embaixo do conturbado movimento da rua Xavier de Toledo com o Viaduto do Chá e adjacências existe uma silenciosa passagem subterrânea há muito tempo fechada ao antigo fluxo EXCLUSIVO de pedestres. Alguém já pensou na outra vida deste subterrâneo? Pois é, eu não fui nesta peça, mas sei que quando ali era uma passagem, existia um trânsito intenso de veículos na área central, e as passagens subterrâneas e as galerias do centro novo, eram lugares seguros para os pedestres desta cidade caminharem. Isto não merecia ser revelado? Um dia houve na cidade um lugar para os pedestres caminharem que não seria interrompido pelo fluxo dos automóveis. Pensava-se então nos habitantes que andam a pé pela cidade. foto:Viaduto do Chá/1942
Campos Elíseos: casarão na Alameda Cleveland
Num casarão da Alameda Cleveland a peça Labirinto Reencarnado do grupo Cia. Pessoal do Faroeste entra em cartaz. Mais uma casa ocupada. A peça faz parte de uma trilogia do grupo que se chama Trilogia degenerada: A História de São Paulo através de um casarão no Campos Elíseos. E ai o comentário do Estado de São Paulo diz que a peça tem muita eugenia, e que parte da Segunda Guerra Mundial. Temos poucos referências deste período na história da cidade de São Paulo. E um livrão que não pode faltar é o Guerra sem guerra do Roney Cytrynowicz, que foi uma das pessoas consultadas pelo grupo para montar esta peça. A estréia aconteceu no sabadão, dia 14 e para quem quiser conferir aqui vão as dicas:
Labirinto Reencarnado. 80 min.. 12 anos. Sede Faroeste. Al. Cleveland,677, tel 3362-8883. Sábado a segunda, 18 h. R$10. Até dia 28/7
Estação Pinacoteca/DOPS
Ontem, 13/06/08 vi no jornal o Estado de São Paulo uma coluna contando a história da recuperação de um lúgubre edifício na rua Mauá. Foi em 1999 que 30 atores e 40 espectadores começaram a mudar a história daquele lugar encenando uma peça no porão onde pessoas haviam sido torturadas e mortas durante a ditadura militar. “A idéia de recuperar o Dops vinha ao
encontro da necessidade de criar ‘âncoras’ culturais no centro. O edifício projetado como estação ferroviária por Ramos de Azevedo em 1914, também abrigou a Delegacia do consumidor, e, em 2004 transformou-se na Estação Pinacoteca, um museu com área de 8 mil metros quadrados.
Desta última ocupação há controvérsias. Já escutei inúmeros depoimentos de gente que não gosta do lugar, ops desculpe, da memória do lugar, e que não acha nada tranqüilo a transformação de um espaço de memórias recentes tão pesadas, vir a ser uma referência cultural da cidade.
Isto é um debate e tanto para quem pensa o que preservar e como fazê-lo.
Quanto aos artistas, fiquem a vontade para iluminar esta cidade cheia de espaços difíceis e fáceis, afinal, apesar da fama que São Paulo é uma senhora carrancuda e sem memória, basta um pouco de luz e boa vontade que a pecha se desfaz, a vida nesta cidade pode ser leve e extremamente profunda.
Atualização sobre o assunto abordado:
Relação com a cidade tem que ser menos anestesiada 02/ago/2010
Na Folha de São Paulo do dia 02 de ago de 2010 saiu um artigo sobre o nova peça do grupo Vertigem que será no Bom Retiro. Vale a pena ler o artigo e perceber como o grupo se apropia do espaço fisico urbano ao encenar suas peças. Segue o link pra quem é assinante da Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0208201022.htm, 02/ago/2010
janeiro 20, 2008 - Publicado por Paula Jano - 0 Comentários
Acabo de assistir Tokyo Ga de Wim Wenders, filme que o diretor fez durante a produção de Paris, Texas (1984). Em duas semanas Wim Wenders vai ao Japão para buscar imagens, memórias de Tóquio construídas por Yasujiro Ozu: um dos diretores de cinema que Wim Wenders considera um tesouro sagrado do século XX. Seus filmes vão desde o cinema mudo no início do 1900 até os anos 60 quando vem a falecer. O filme Tokyo Ga é tocante a princípio porque trata de um registro totalmente pessoal de Tóquio. Um encontro de Wim Wenders com quase um século de imagens da cidade. Ao mesmo tempo, uma busca que parte da descoberta das pessoas que trabalharam com Ozu, sua técnica de fazer cinema , mas também com uma certa busca de Wim Wenders de identidade através da compreensão das radicais transformações do Japão, de Tóquio, dos elementos do passado que ainda se fazem presentes no ritmo caótico da grande cidade. O filme de Wenders começa por fragmentos de um filme mudo de Ozu, “ Viagem a Tóquio”. Depois há um corte rápido e chegamos em Tóquio moderna pelo registro de Wim Wenders. Há cenas fantásticas, como os jogos de azar em porões em que o ganho é obtido através do acúmulo de bolinhas. As máquinas em sintonia com os homens mostram uma repetição de movimentos, nada mais do que os famosos passatempos modernos que habitam todas as grandes cidades do mundo. Vicio adquirido pelos moradores de Tóquio após a Segunda Guerra Mundial.
A prática do golf , coqueluche em Tóquio, mas com sutilezas emblemáticas e talvez extremamente vinculadas a tradição oriental japonesa é outro caso exemplar deste fenômeno. Em Tóquio, o golf não requer que o jogador acerte a bolinha no buraco. O foco do esporte esta na repetição e aprimoramento, no movimento do corpo em lançar a bolinha. Falta de espaço ou será mesmo uma forma particular de interpretar o jogo? As repetições também surgem na forma de Ozu dirigir os atores de seus filmes. Uma cultura da precisão de movimentos que se transforma radicalmente após a penetração das influências ocidentais. Há também nostalgia no filme, talvez a noção que esta tradição, a identidade de Toquio dos filmes de Ozu, vai se perdendo à entrada das influências ocidentais. No fundo o filme trata da identidade e da memória de todos nós. Do desejo de estarmos em contato com algo verdadeiro, um tesouro encantado, por que não? Algo perdido nas nossas próprias memórias. Imagens queridas que se encontram embaralhadas em meio a tantas ofertas/imagens de prazeres rápidos, mas que permanecem presentes e silenciosas no espaço.
Achei por “puro acaso” numa caixa de papéis velhos da minha casa este postal dos anos 90 que ilustra o post, de uma Tóquio frenética, tecnológica e elétrica como diz o missivista da correspondência, mas ainda com a imagem de gueixa pronto para fazer um novo começo. Tokyo Ga é esta memória, de algo que vem de muito antes, mas que parte das duas semanas que Wim Wenders larga as filmagens de Paris,Texas, um filme de buscas, memória e identidade, e vai para Tóquio de Ozu ” apenas para observar, sem querer provar nada pra ninguém”. E ai toda uma outra história pode começar . Vale a pena assistir.
O filme Tokyo GA pode ser alugado em DVD na 2001. Paula Janovitch
janeiro 7, 2008 - Publicado por Paula Jano - 0 Comentários
Pois é, o Rio de Janeiro continua lindo e totalmente musical. De uns tempos para cá a história da musicalidade da cidade anda em pauta . O que é totalmente correto e de bom gosto. Caso recente deste mapeamento e reinvenção bem sucedida de um espaço perdido e decadente, é a Lapa carioca. Um bairro que até bem pouco tempo fazia alusão a história de uma boêmia de outros tempos, de malandros e prostitutas que parecia totalmente em ruínas. Fui a Lapa há uns vinte anos atrás. Lembro que entrei numa daquelas vielinhas, talvez cenário do filme Madame Satã, e tomei sangria. Tudo era decadente na região e lembrava com tristeza os outros tempos dos grandes malandros e prostitutas. Quem vai a Lapa hoje em dia como diz Caetano Veloso, não precisa tomar remédio, porque ela se transformou em saúde pública. Tem um monte de opções para beber, dançar, conversar ou mesmo assistir a um show no Circo Voador. Ainda existem os pequenos hotéis de pernoite e os pontos de travestis da região. Mas até isto vem mudando. Os travestis começam a montar lojas e diversificar seus negócios. Assim como os bares que se abrem na Lapa, são temáticos e aludem a este passado que por muitos anos esteve adormecido sobre a fuligem de uma malandragem mal tratada. No dia que fui a Lapa, quase na viradinha do ano, escolhi o bar Rio Cenarium e dancei um monte lá. Quando sai, vi uma fila enorme na rua. Bem diferente de outros tempos em que visitar a Lapa era andar solitário por ruas silenciosas. Para saber mais ver reportagem da Folha de São Paulo 06/01/07
janeiro 7, 2008 - Publicado por Paula Jano - 0 Comentários
A outra novidade carioca na área do resgate de sua musicalidade é o mapeamento da bossa nova. Na comemoração dos seus 50 anos o historiador Carlos Roquette prepara roteiros em quatro bairros do Rio para mostrar pontos históricos da bossa de João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Morais e Nara Leão. Mas atenção aos interessados, os roteiros serão feitos nos dias 25,26,27 de janeiro. Mais informações no site www.culturario.com.br Para saber mais, Folha de São Paulo 05/01/07